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Brasil • Ajuda & Orientações

Apoio no luto (Brasil): como sobreviver aos primeiros dias, lidar com a cultura brasileira e encontrar ajuda

Luto não é “fraqueza”, nem falta de fé, nem drama. É uma resposta humana ao amor e ao vínculo. No Brasil, o sofrimento muitas vezes é atravessado por frases bem-intencionadas (“seja forte”, “foi vontade de Deus”, “já está em um lugar melhor”) — e ainda assim você pode se sentir sozinho, culpado ou “estranho” por não reagir como esperam.

Esta página é um guia brasileiro, profundo e prático: o que o luto pode parecer no corpo e na mente, como sobreviver à fase de choque, como lidar com família e trabalho, como falar com crianças, como reconhecer sinais de risco, e como acessar apoio (SUS, CVV, UPA, terapia e iniciativas de acolhimento ao luto).

Guia em dois trilhos (para evitar sobrecarga)

Se você não se sente seguro agora

Vá para ajuda urgente (SAMU 192 / Polícia 190 / Bombeiros 193 / CVV 188). Seu foco é segurança e suporte — não “aguentar sozinho”.

Se você está seguro, mas quebrado por dentro

Comece por primeiras 72 horas e apoios práticos. Depois veja como conseguir ajuda. Se há criança/adolescente envolvido, pule para crianças & adolescentes.

Para passos práticos após um falecimento (documentos, funeral, serviços públicos), veja O que fazer após uma morte e Brasil • Ajuda & Orientações.

Importante

Se você sente que não consegue se manter seguro, se pensa em se machucar, ou se a dor virou “perigo” — procure ajuda agora (192 / 190 / 193 / 188). Você merece apoio imediato.

Ajuda urgente no Brasil (se você se sente em risco)

Se você sente que pode se ferir, não consegue se controlar, está em pânico extremo, ou há risco imediato: busque ajuda agora.

  • Emergência médica (SAMU): 192
  • Polícia (risco de violência/ameaça): 190
  • Bombeiros (resgates/acidentes/incêndio): 193
  • Apoio emocional (CVV): 188

Se você está preocupado com alguém, é válido ligar por orientação. Você não precisa “ter certeza” para pedir ajuda.

Primeiras 72 horas: como sobreviver ao choque

No começo, o luto pode parecer choque: anestesia emocional, tremor, náusea, falta de ar, peito apertado, insônia, confusão, “cabeça pesada”, sensação de irrealidade. Isso é o sistema nervoso tentando suportar uma ruptura — não é falha sua.

Regra das 72 horas: tarefas mínimas

  • Água + algo simples para comer (sopa, pão, fruta, iogurte). Sem perfeição.
  • Calor e descanso (durma “quando vier”, mesmo que em blocos).
  • Uma pessoa âncora (alguém que responda mensagens e filtre ligações, se possível).
  • Uma lista de 3–5 tarefas por dia (não mais). O resto pode esperar.
  • Evite decisões enormes (mudança, demissão, cortes radicais) enquanto dá.

Se você precisa de passos práticos (documentos, funeral, avisos), use como guia de “uma tarefa por vez”: O que fazer após uma morte.

Se você estiver em pânico (ferramentas rápidas)

  • Respiração 4–6: inspire 4, solte 6, repita 10 ciclos.
  • Aterramento 5–4–3–2–1: 5 coisas que vê, 4 que sente, 3 que ouve, 2 que cheira, 1 que prova.
  • Água fria: lave o rosto/mãos ou segure gelo por 30–60s para reduzir a intensidade.
  • Se você se sentir em risco: volte para ajuda urgente.

Um script simples (para quando você não consegue falar)

Você pode ler isso literalmente:

“Eu perdi alguém e não estou conseguindo lidar. Estou com muita ansiedade e não consigo funcionar direito. Agora eu me sinto [seguro / não seguro]. Eu preciso de orientação e apoio.”

Em crise aguda: “Preciso de ajuda agora.” (192 / 188 / UPA).

Se eu piorar hoje à noite: plano simples de segurança (5 linhas)

Luto pode piorar à noite: silêncio, cansaço, pensamentos em espiral. Ter um plano curto reduz o risco de você enfrentar tudo sozinho. Se houver risco imediato, vá para ajuda urgente.

Meu plano (preencha mentalmente agora)

  1. Sinais de alerta em mim: (ex.: “não paro de chorar”, “pânico”, “vontade de sumir”, “não durmo há dias”).
  2. Uma pessoa para chamar: (nome + “posso te ligar se piorar?”).
  3. Um lugar mais seguro: (sala, casa de alguém, UPA, ficar acompanhado).
  4. Uma ação de 10 minutos: água + respiração 4–6 + aterramento 5–4–3–2–1.
  5. Se passar do limite: CVV 188 / SAMU 192 / UPA (idealmente acompanhado).

Dica prática: se você está em risco, reduza acesso a álcool e itens que possam te machucar, e peça para alguém ficar com você.

Uma frase para usar em crise (copy/paste)

“Estou piorando e não consigo me manter seguro(a) sozinho(a). Preciso de ajuda agora.”

Luto na cultura brasileira: a pressão por “força” pode isolar

No Brasil, muitas pessoas demonstram carinho tentando “consertar” a dor: dar explicação, dar conselho, espiritualizar rápido, ou pedir que você seja forte. Isso pode vir com amor — e ainda assim pode te deixar sem espaço para sentir.

Se você trava quando alguém pergunta “como você está?”

Você não precisa performar. Frases simples e brasileiras podem ser:

  • “Estou muito mal. Um dia de cada vez.”
  • “Estou tentando, mas está pesado.”
  • “Eu não tenho palavras ainda.”
  • “Hoje eu não consigo falar, mas obrigado por estar aqui.”

Se as pessoas dizem coisas que te machucam (sem querer)

Você pode colocar limites com gentileza:

  • “Eu sei que você quer ajudar. Agora eu preciso só de presença, sem explicação.”
  • “Por favor, não me diga para ser forte. Eu preciso poder desmoronar um pouco.”
  • “Me ajuda com algo prático? (comida, criança, resolver X). Falar é difícil.”

Fé e luto podem coexistir sem pressa

Para quem tem espiritualidade, ela pode consolar — mas não precisa apagar a dor. Você pode ter fé e ainda assim sentir raiva, saudade, confusão e desamparo. Isso não te faz “menos crente”, te faz humano.

Como o luto funciona: o que costuma ser normal vs o que pede ajuda

Luto raramente é linear. Ele vem em ondas. Você pode “aguentar” de manhã e desabar à tarde. Pode sentir nada por horas e, de repente, uma música ou um cheiro te derruba. Isso não é regressão — é processamento.

Normal / comum (mesmo que pareça estranho)

  • Choque / anestesia: o cérebro reduz sensação para sobreviver ao excesso.
  • Raiva: da injustiça, do sistema, de pessoas, de Deus, do mundo.
  • Culpa / “e se…”: o cérebro tenta recuperar controle refazendo cenários.
  • Ansiedade: medo de novas perdas, pânico, sensação de ameaça.
  • Névoa mental: esquecimento, lentidão, dificuldade de foco.
  • Físico: cansaço, dores, alteração de apetite, insônia.
  • Alívio: especialmente após doença longa e sofrimento (não é “maldade”).
  • Momentos bons: rir não é traição — é o sistema nervoso respirando.

Sinais de risco (procure apoio)

  • Pensamentos persistentes de suicídio ou de se machucar.
  • Insônia severa por muitas noites, pânico escalando, incapacidade de funcionar.
  • Flashbacks/imagens intrusivas após morte traumática (ou ter presenciado cenas).
  • Uso pesado de álcool/drogas para “aguentar”.
  • Desconexão forte da realidade (“não sinto que estou aqui”) com frequência.

Se algo disso está acontecendo, você merece suporte agora. Veja ajuda urgente e a seção luto complicado.

Frase que ajuda (para quando você se julga)

“Meu corpo está reagindo a uma ruptura. Isso é luto, não fraqueza.”

Tipos de luto (para você parar de achar que está “fazendo errado”)

Pessoas diferentes sofrem de formas diferentes — e até a mesma pessoa muda de um dia para o outro. Reconhecer o “tipo” pode reduzir culpa e ajudar a buscar a ajuda certa.

Luto antecipatório (doença longa)

Você pode ter sentido luto antes da morte (cansaço, medo, preparo) e depois sentir vazio ou “colapso”. Isso é comum: o corpo segurou por muito tempo.

Luto súbito (morte inesperada)

Pode vir com choque, imagens intrusivas e sensação de irrealidade. “Meu cérebro não aceita” é uma frase comum. Suporte precoce reduz risco de trauma.

Luto por relação difícil (sentimentos mistos)

Amor e raiva, alívio e culpa podem coexistir. Luto não exige relação “bonita” para ser real. Você merece espaço para sentimentos complexos.

Luto não reconhecido (quando os outros minimizam)

Ex: ex-parceiro, amigo muito próximo, colega “quase família”, perdas com pouca validação. A dor existe mesmo sem “permissão social”.

Luto parental / gestacional / neonatal

A dor pode vir com culpa intensa e isolamento. Apoio especializado (como luto parental) costuma fazer diferença, inclusive para casais.

30 apoios práticos que realmente ajudam (no Brasil)

Isso não “cura” a perda. Mas deixa a vida suportável e ajuda a construir estabilidade. Escolha 2 ou 3. O que é pequeno e repetível funciona melhor do que o perfeito e impossível.

  1. Beba água primeiro. Coloque uma garrafa ao lado da cama/sofá.
  2. Coma o mínimo possível. Sopa, pão, fruta, iogurte. Sem metas.
  3. Faça um “plano de 1 página”. Três itens: corpo, 1 burocracia, 1 coisa gentil.
  4. Tenha um “parceiro de burocracia”. Alguém para abrir mensagens, acompanhar a você, anotar e lembrar.
  5. Diminua decisões. Roupa simples, comida simples, rotina simples.
  6. Contrato de 10 minutos fora. Só caminhar 10 min. Sem objetivo.
  7. Filtre mensagens. Peça a alguém para postar uma atualização e reduzir respostas individuais.
  8. Crie uma “zona sem conselho”. “Eu preciso que você só escute.”
  9. Cuidado com álcool. Ele piora ansiedade e sono — principalmente após velório/funeral.
  10. Use aterramento quando vier a onda. Respiração 4–6, 5–4–3–2–1, água fria.
  11. Escolha um ritual de memória. Vela, oração, carta, música, chá, um lugar.
  12. Pasta do luto. Um local para documentos, senhas, contatos, notas e recibos.
  13. Anote datas importantes. Velório, sepultamento, audiências, exames, prazos.
  14. Planeje o “depois” de dias difíceis. Após cerimônias e tarefas, reserve 1 hora de recolhimento.
  15. Diga a verdade em frases pequenas. “Eu não estou bem.” “Está pesado.”
  16. Proteja-se de detalhes gráficos. Evite revisitar imagens e cenas se houve trauma.
  17. Se a noite é o pior, faça um plano noturno. Quem ligar? CVV 188? UPA? Um amigo?
  18. Microcontato. Uma mensagem para uma pessoa: “Você pode me checar amanhã?”
  19. Permissão para ser incoerente. Alguns dias funcionam, outros não.
  20. Adie decisões grandes. Mudança, demissão, cortes radicais — espere se puder.
  21. Procure portas do SUS. UBS/CAPS/UPA podem ser caminhos reais, especialmente em crise.
  22. Se houver terapia na empresa (EAP), use. Pode ser mais rápido do que serviços gerais.
  23. “Uma tarefa prática e descanso”. 20 minutos de ação, depois parar.
  24. Se a culpa vier com força, nomeie. “Isso é culpa do luto, não um veredito.”
  25. Use um “menu de ajuda”. “Comida / criança / carona / companhia / ligar para X — escolha um.”
  26. Sobreviva 10 minutos. “Eu só preciso passar os próximos 10 minutos.”
  27. Busque pares. Falar com alguém que entende luto muda tudo.
  28. Crie uma âncora semanal. O mesmo café, a mesma caminhada, a mesma ligação.
  29. Peça o que você precisa, diretamente. “Você pode vir comigo?” é um pedido válido.
  30. Se ficar perigoso, peça ajuda agora. Ajuda urgente existe para isso (192 / 188).

Quando a burocracia te derruba (sem juridiquês): como simplificar

No Brasil, luto frequentemente vem junto de mensagens, documentos, contas, decisões e pressão familiar. Se você tentar fazer tudo, você quebra. A estratégia mais segura é reduzir o problema em pedaços pequenos e repetíveis.

Regra de ouro: 1 tarefa burocrática por dia (ou por semana)

  • Escolha uma coisa: “ligar para X”, “separar documentos”, “responder uma mensagem importante”.
  • Faça por 20–30 minutos e pare. Descanso é parte do trabalho.
  • Se possível, faça acompanhado (parceiro de burocracia).

Três pastas que salvam

  • Documentos: certidões, recibos, protocolos, cópias, anotações.
  • Contatos: funerária, cartório, hospital, trabalho, familiares-chave.
  • Notas: o que foi feito, datas, números, “próximo passo”.

Se você precisa de um checklist prático

Use a página “passo a passo” (documentos, funeral, avisos) e faça um item por vez: O que fazer após uma morte.

O que dizer (mensagens prontas para WhatsApp) — quando você não tem energia

Quando você está em luto, responder todo mundo vira uma tortura. Copie e cole. Você não precisa escrever bonito — você precisa sobreviver.

Atualização geral (para postar ou mandar para um grupo)

Copy/paste:

“Oi, gente. Passando para avisar que eu estou em luto e sem muita energia para responder individualmente. Agradeço o carinho e as mensagens. Se eu demorar, não é falta de gratidão — é que eu estou tentando atravessar um dia de cada vez.”

Pedido direto de ajuda prática (funciona muito melhor do que ‘qualquer coisa’)

Copy/paste:

“Você consegue me ajudar com uma coisa específica? Eu preciso de [carona / comida simples / ficar comigo 1 hora / buscar criança / ligar para X]. Está difícil fazer tudo sozinho(a).”

Limite gentil (quando conselhos e frases prontas machucam)

Copy/paste:

“Eu sei que você quer ajudar. Agora eu preciso só de presença e escuta, sem explicação e sem ‘ser forte’. Se puder, só fique comigo um pouco.”

Mensagem para escola (criança/adolescente enlutado)

Copy/paste:

“Oi, [Nome/Coordenação]. Na nossa família houve um falecimento e [Nome da criança] está em luto. Pode haver choro, dificuldade de foco e alterações de comportamento/sono. Peço acolhimento e flexibilidade temporária com tarefas/provas/presença. Se possível, me avisem como podemos apoiar juntos.”

Mensagem para familiar conflituoso (quando você precisa de espaço)

Copy/paste:

“Eu entendo sua intenção, mas eu não consigo lidar com discussões agora. Eu preciso de [silêncio / tempo / visitas curtas]. Vamos combinar de falar sobre isso em outro momento.”

Redes sociais e luto (posts, gatilhos, aniversários): como se proteger

Redes sociais podem acolher — e também ferir: comentários invasivos, “homenagens” que parecem performance, lembranças automáticas e datas. Proteger sua mente não é frieza. É cuidado.

Três regras simples (funcionam no Brasil real)

  • Você não deve nada ao feed. Postar (ou não postar) é uma escolha sua.
  • Mute é autocuidado. Silenciar pessoas e gatilhos por um tempo é legítimo.
  • Controle o “timing” das lembranças. Se possível, evite rolar sem fim à noite.

Se alguém postou algo que te feriu (sem querer)

Você pode pedir ajuste sem brigar: “Eu vi o post e para mim está difícil. Você pode editar/remover/evitar detalhes? Eu preciso me proteger agora.”

Lembrete

No luto, sua mente tem menos “pele”. Coisas pequenas podem doer muito. Isso não é exagero — é vulnerabilidade humana.

Datas gatilho e “primeiras vezes” (como atravessar)

Muitas pessoas sofrem mais na antecipação: o primeiro aniversário sem a pessoa, o primeiro Natal, Dia das Mães/Pais, datas de audiências, decisões de família, divisão de objetos, mudança de casa. Ondas nesses períodos não são recaída — são memória e vínculo.

Plano simples em 3 partes

  1. Baixe a pressão: corte compromissos, encurte visitas, permita-se ir embora.
  2. Escolha um ritual: vela, oração, música, carta, visita, doação, um prato.
  3. Marque suporte: combine uma ligação com alguém para o dia seguinte.

Se a família briga sobre o que ‘deveria’ ser feito

É comum estilos de luto entrarem em choque. Um quer juntar todos, outro quer silêncio. Se der, combine um momento mínimo em comum (até 10 minutos) e permita que cada um passe o resto do dia do seu jeito.

Permissão realista

Você não precisa “celebrar direito” este ano. Você só precisa atravessar.

Crianças & adolescentes: como falar sobre morte (contexto brasileiro)

Crianças precisam de linguagem simples e verdadeira. Evite “foi dormir” (pode virar medo de dormir). Prefira: “Morreu. O corpo parou de funcionar. Não volta.”

Script simples (adapte por idade)

Você pode dizer:

“Eu tenho uma notícia muito triste. [Nome] morreu. Isso quer dizer que o corpo dele(a) parou de funcionar e ele(a) não pode voltar. Nós vamos sentir muita saudade. Você pode me perguntar qualquer coisa. Você está seguro(a) e nós vamos cuidar de você.”

O que pode acontecer (muitas vezes é normal)

  • Luto em “pulsos”: brinca, chora, brinca de novo.
  • Perguntas repetidas (é processamento).
  • Dores no corpo, regressões, medo de separação, alterações de sono.

Quando buscar ajuda extra para a criança/teen

  • Pesadelos persistentes, pânico, mudança intensa de comportamento.
  • Autoagressão, uso de substâncias, frases repetidas de “não quero mais viver”.
  • Queda escolar acentuada por semanas sem melhora.

Procure apoio (psicólogo, CAPS infantojuvenil onde existir, escola, pediatra). Em risco imediato, chame 192/190.

Escola (uma aliada real)

Avise a escola cedo. Rotina e acolhimento ajudam. Ajustes de prova, tarefas e presença podem ser necessários por um tempo.

Luto complicado, trauma e quando buscar ajuda

Às vezes o luto “trava” ou o trauma toma a frente. Isso não é falta de caráter — é o sistema nervoso sobrecarregado. Buscar suporte pode mudar o rumo, especialmente quando há risco.

Sinais de que você deve procurar suporte profissional

  • Pensamentos suicidas, autoagressão, sensação de que não consegue se manter seguro.
  • Insônia severa por várias noites, pânico escalando, incapacidade de funcionar.
  • Imagens intrusivas/flashbacks após morte traumática.
  • Culpa persistente que “engole” a vida.
  • Dependência de álcool/drogas para aguentar.
  • Entorpecimento total que não alivia com o tempo.

Quando o luto também é trauma (exemplos comuns)

Se a morte foi súbita, violenta, envolveu tentativas de reanimação, você encontrou a pessoa, houve cenas difíceis, ou há investigação: trauma pode se somar ao luto. Diga isso ao buscar ajuda: “Estou com imagens intrusivas / flashbacks / picos de pânico”.

Quando procurar psicólogo vs psiquiatra (visão prática)

  • Psicólogo: apoio contínuo, processamento do luto, manejo de ansiedade, ferramentas, grupo.
  • Psiquiatra / avaliação médica: quando há insônia severa, pânico intenso, risco, ou colapso de funcionamento.
  • SUS: UBS/CAPS/UPA podem orientar o caminho e a prioridade.

Se você está pensando em se matar

Procure ajuda agora. Você não precisa carregar isso sozinho.

  • Emergência médica: 192
  • Polícia (risco imediato): 190
  • Bombeiros (resgate): 193
  • Apoio emocional: CVV 188

Trabalho, dinheiro e vida diária no Brasil

No Brasil, o luto frequentemente colide com cobranças rápidas: trabalho, contas, filhos, burocracia e a expectativa de “voltar ao normal”. É comum sentir culpa por funcionar — e culpa por não funcionar. As duas coisas podem coexistir.

Afastamento por luto (visão prática, sem juridiquês)

  • Muitas empresas aplicam a chamada “licença por óbito” (popularmente “licença nojo”). Em geral, o prazo depende do regime (CLT/estatuto) e pode ser ampliado por acordo/convenção/política interna.
  • Se você não consegue trabalhar, procure avaliação médica. Um afastamento por motivo de saúde pode ser apropriado quando o funcionamento colapsa.
  • Peça ajustes temporários: carga menor, flexibilização de horário, trabalho remoto, retorno gradual.
  • Se sua empresa tem apoio psicológico (EAP) ou convênio, pode ser um caminho rápido de acolhimento.

Dica prática: peça ao RH “o resumo por escrito” da política de luto e do que precisa apresentar (ex.: certidão/declaração).

Email/WhatsApp para gestor/RH (tom brasileiro, curto)

Assunto:

Luto — solicitação de afastamento/ajustes

Mensagem:

Oi [Nome], eu fui(a) enlutado(a) e não estou conseguindo funcionar normalmente. Podemos alinhar [afastamento por luto / alguns dias] e ajustes temporários (carga menor, flexibilidade, retorno gradual)? Eu vou atualizando você e, se necessário, consigo avaliação/atestado. Obrigado(a).

Burocracia e dinheiro quando você está esgotado

Faça uma coisa por vez. Um “dia de luto” não combina com dez tarefas. Escolha 1 tarefa burocrática por dia (ou por semana) e pare. Se possível, peça para alguém sentar com você para abrir mensagens, anotar números e separar documentos.

Como conseguir ajuda (SUS, UPA, terapia e grupos)

Quando você está exausto, “buscar ajuda” vira mais uma tarefa impossível. Pense em portas simples: crise agora (UPA/SAMU/CVV) vs suporte contínuo (SUS/terapia/grupos).

Portas mais rápidas (quando você precisa de ajuda já)

  • Risco imediato / urgência médica: 192
  • Segurança/violência: 190
  • Resgates/incêndio/acidente: 193
  • Apoio emocional imediato: CVV 188
  • Se você não consegue se manter seguro: vá a uma UPA/pronto atendimento (idealmente acompanhado)

SUS (caminhos típicos)

  • UBS (posto de saúde): avaliação, orientação e encaminhamentos.
  • CAPS: saúde mental com acompanhamento (varia por cidade e modalidade).
  • UPA/pronto atendimento: porta de urgência quando o sofrimento está agudo.

Se disserem que “vai demorar”, pergunte: “Existe grupo de luto? Serviço comunitário? Apoio breve? Alguma alternativa enquanto espero?”

O que dizer ao buscar ajuda (copy/paste)

Experimente:

“Eu perdi alguém e não estou conseguindo funcionar. Meu sono está muito ruim, minha ansiedade está alta e eu sinto que estou no limite. Eu quero orientação e apoio para atravessar o luto.”

Se houver trauma: “Estou com imagens intrusivas / flashbacks / picos de pânico.”

Terapia particular (mais rápida, mas com custo)

Terapia particular pode ser mais rápida. Se for possível, procure alguém com experiência em luto e trauma. Se o seu sofrimento é alto, pergunte sobre atendimentos sociais, valores reduzidos, clínicas-escola ou grupos.

Grupos de luto (um recurso poderoso)

Grupos reduzem isolamento e normalizam o que você sente. Para algumas pessoas, falar com “quem entende” funciona melhor do que conselhos. Veja PROALU e iniciativas de acolhimento ao luto abaixo.

Canais e organizações (Brasil)

Emergência

Emergência médica — SAMU (Brasil)

Para urgências médicas: perda de consciência, falta de ar, dor no peito, AVC suspeito, tentativa de suicídio, intoxicação, acidentes graves.

Site: gov.br/saude

Telefone: 192

Funciona 24/7. Se houver risco imediato de vida, chame agora. Se for um cenário de violência/ameaça, use 190.

Polícia (Brasil)

Para risco de violência, ameaça imediata, perseguição, invasão, ou situação perigosa envolvendo segurança pública.

Site: gov.br

Telefone: 190

Se alguém estiver em risco agora, não espere. Ligue 190.

Bombeiros (Brasil)

Para incêndios, resgates, acidentes, quedas, afogamentos e salvamentos.

Site: defesacivil.pr.gov.br

Telefone: 193

Útil em situações de resgate, risco estrutural e emergências com necessidade de salvamento.

Crise e apoio emocional

CVV — Centro de Valorização da Vida

Apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuito e sigiloso. Você não precisa “estar no limite” para ligar.

Site: cvv.org.br

Telefone: 188

Atendimento 24/7. Se houver risco imediato de vida, chame 192/190/193 (ou vá a uma UPA/pronto-socorro).

Disque Saúde 136 (orientação e canais do SUS)

Canal para informações e orientações em saúde, além de encaminhamentos e serviços do SUS (varia conforme o tipo de atendimento).

Site: gov.br/saude

Telefone: 136

Pode ajudar a entender portas do SUS e como acessar serviços na sua região. Em crise com risco imediato, priorize 192/190/193 ou CVV 188.

Apoio focado em luto (iniciativas e programas)

PROALU — Programa de Acolhimento ao Luto

Acolhimento breve ao luto e acompanhamento psicoterápico (individual e em grupo) para pessoas enlutadas, incluindo crianças e adolescentes.

Site: proalu.com.br

Boa opção quando você quer suporte focado em luto (não apenas ‘ansiedade’ ou ‘depressão’).

Instituto do Luto Parental

Acolhimento a famílias em luto gestacional, perinatal, neonatal, infantil e perdas relacionadas.

Site: institutodolutoparental.org

Se a perda envolve gestação/bebê/criança, apoio especializado pode fazer grande diferença.

Como encontrar apoio perto de você

CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) — via SUS (na sua cidade)

Serviço público de saúde mental (varia por município). Pode atender crises e acompanhamento, especialmente em sofrimento psíquico intenso.

Site: gov.br/saude

Procure ‘CAPS + sua cidade’ ou peça orientação na UBS/UPA. Em risco imediato: 192/190/193 ou CVV 188.

UPA / Pronto Atendimento (porta de urgência)

Se você está em sofrimento agudo (pânico, desorganização, insônia extrema, risco), uma UPA ou pronto atendimento pode ser uma porta de cuidado.

Se você não consegue se manter seguro agora, vá acompanhado ou chame 192.

Como escolher o “tipo certo” de ajuda

Se há risco agora, comece por emergência/crise (192/190/193/188). Se você quer apoio especializado em luto, procure programas e grupos focados em luto. Se o sofrimento é contínuo e está impactando sua vida, combine portas: um suporte imediato (CVV/UPA) + acompanhamento (SUS/CAPS/terapia/grupo).

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FAQ (perguntas reais sobre luto)

Estas são perguntas que pessoas enlutadas fazem no Brasil, do jeito que realmente perguntam. Se alguma delas descreve você, não significa que você está “quebrando”. Significa que você está humano(a).

Quanto tempo dura o luto?

Não existe um prazo fixo. Muitas pessoas percebem fases: choque no início, uma “segunda onda” depois da cerimônia quando o apoio diminui, e ondas em datas marcantes. Melhorar costuma significar que as ondas ficam menos frequentes ou menos dominantes — não que a saudade desaparece.

Como lidar com o luto nos primeiros 30 dias?

  • Reduza metas: corpo primeiro (água, comida simples, sono em blocos).
  • Uma tarefa por vez (1 burocracia/dia ou por semana).
  • Escolha 1–2 pessoas âncora e use mensagens prontas.
  • Planeje as semanas 2–6: o apoio social cai e a dor pode subir.

É normal ficar ‘anestesiado’ semanas depois?

Sim. Às vezes o cérebro protege você do excesso. A anestesia pode ir e voltar. Se ela fica constante e você se sente desconectado da realidade ou incapaz de funcionar por muito tempo, é um bom motivo para buscar apoio (SUS/terapia/grupo).

Por que eu pioro depois do velório/funeral?

Cerimônias criam estrutura: gente por perto, tarefas claras, adrenalina segurando. Depois, a realidade “cai” e o suporte diminui. Isso é muito comum. Planeje cuidado para as semanas 2–6, não só para “a semana do evento”.

É depressão ou luto?

Luto pode parecer depressão (tristeza, falta de energia, insônia), mas geralmente vem em ondas e está ligado à perda. Se a desesperança fica constante, há incapacidade prolongada de funcionar, ou pensamentos de morte/autoagressão, procure avaliação e apoio. Em risco imediato: 192/190/193/188.

Quando o luto vira ‘luto complicado’?

Não existe um “relógio” único, mas é um bom sinal procurar ajuda quando a dor fica travada por muito tempo, quando há trauma marcante, quando o funcionamento da vida desaba, ou quando a pessoa se isola totalmente. Ajuda precoce pode impedir que o sofrimento vire um ciclo crônico.

Eu sinto raiva de Deus / do hospital / da família. Isso é normal?

Raiva é uma reação comum à injustiça e à impotência. Ela pode ser parte do luto — não um “pecado” ou falha moral. O objetivo não é eliminar raiva rapidamente, e sim encontrar um lugar seguro para expressá-la e não se destruir por dentro.

Eu tenho medo de morrer ou perder mais alguém depois que alguém morreu — isso é normal?

Sim. Após uma perda, o cérebro pode ficar hipervigilante: “o mundo não é seguro”. Isso pode aparecer como ansiedade, pânico, necessidade de controle e medo de novas perdas. Ferramentas de aterramento e apoio (SUS/terapia/grupo) ajudam muito.

E se a relação era difícil?

Sentimentos mistos são comuns: amor e raiva, alívio e culpa, saudade e ressentimento. O luto não exige relação perfeita para ser real. Se a culpa vira um looping que bloqueia a vida, apoio especializado pode ajudar muito.

Eu não durmo — o que eu faço?

Insônia é comum, mas insônia severa pode aumentar pânico e desespero. Faça um “plano noturno”: reduza álcool, tenha água e um lanche, use respiração/aterramento, e procure apoio (CVV 188) se estiver em espiral. Se persistir por muitas noites, procure avaliação (UBS/CAPS/UPA conforme intensidade).

Como ajudar uma pessoa em luto sem atrapalhar?

  • Ofereça algo específico: “posso levar comida amanhã?”, “posso te buscar?”
  • Escute mais do que explica. Evite “pelo menos…”.
  • Respeite limites: visitas curtas, silêncio, sem insistência.
  • Volte depois de 2–6 semanas: é quando muita gente fica mais sozinha.

Como lidar com objetos/roupas da pessoa?

Não há “certo”. Algumas pessoas guardam por meses; outras preferem mexer aos poucos. Estratégia segura: escolha uma micro-área (1 gaveta) e pare quando ficar demais. Se houver conflito familiar, combine regras claras e tempo.

Eu me sinto culpado(a) quando rio. Isso é errado?

Não. Um momento bom não é traição — é o sistema nervoso respirando. Luto pode conter riso. Amor e dor podem existir juntos.

Se só uma resposta couber hoje

Se você se sente em risco ou pensa em se machucar, vá para ajuda urgente agora (192 / 190 / 193 / 188). Você merece suporte imediato.